Depois de muitas situações adversas, parei pra pensar um pouco. Refleti o suficiente para chegar a uma conclusão mais ou menos justificadora da infinidade de problemas que existem na Itália.
As pessoas aqui não têm a ambição de subir na vida, em geral. Tudo o que eles querem é um salário maior (mesmo que pouco) que as despesas mensais e pronto, tudo resolvido do ponto de vista da vida profissional. A massa não almeja subir de posição, buscar um cargo (e salário) melhor(es).
Informações privilegiadas e internas que tenho de um escritório de arquitetura ilustram tal situação. Vejam:
Ao finalizar parte do projeto deve-se iniciar a busca por imprecisões e fazer uma verificação fora do computador, olhando o conjunto. Duas sugestões são feitas:
- Enviar o arquivo pra uma loja plotadora e ir buscar as plantas depois de 1,5 hora;
- Imprimir no próprio escritório em papel menor e emendá-los pra começar a revisão em 15 minutos.
A opção desejada pela responsável por decidir isso foi, obviamente, a menos produtiva opção de 1,5 hora.
O problema é que ninguém enxerga que produtividade é um ponto positivo. Se o projeto fica pronto antes, é menos dinheiro pago inutilmente, menos horas-trabalho desperdiçadas e mais eficiência. Opa, toquei no ponto: Eficiência... Pra que? Se eu ganho, no final do mês, o suficiente pra manter minha vida exatamente como está e, no futuro, continuar sempre no mesmo nível?
Inútil pensar que eles vão enxergar isso. Por isso que os turcos aqui ganham dinheiro. As lojinhas de Kebab (espécie churrasquinho grego) ficam abertas de 11:00 às 00:00. O equivalente italiano abre de 11:00 a 15:00 e de 18:00 a 22:00.
terça-feira, 1 de abril de 2008
Tempo = dinheiro
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Palpiteiros
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Labels: Ineficiência italiana, trabalhar
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Trabalhe na Itália!
Venham todos pra cá, é o melhor lugar pra trabalhar que existe.
O leitor regular se pergunta se é o mesmo autor dos outros posts... Eu garanto que sou eu mesmo. Mas aqui o equema é bom porque ter um emprego está muito, mas MUITO longe de significar que você precisa trabalhar.
Ontem fomos a uma joalheria. A Carol, minha namorada, precisa ajustar o tamanho de um anel que ela comprou e iríamos então perguntar o preço e os detalhes. Tocamos a campainha (fica trancada a porta) e ela magicamente se abriu.
Ali dentro vimos que uma senhora no andar de cima (mezzanino) fumava e falava ao telefone. Esperamos uns 2 minutos e nada de ela atender. Ficamos irritados e resolvemos sair. A porta trancada. Aí olhei pra cima e falei "Desculpe". Ela mais do que rapidamente pediu pra pessoa no outro lado da linha aguardar um instante e perguntou:
- Vocês precisavam de alguma coisa?
- Sim, eu preciso saber quanto custa pra ajustar esse anel.
- Ah, a vendedora só chega umas 15:30 (Eram 14:00).
Aí a gente se irritou com a preguiça da infeliz senhora e falamos:
- E o que estamos aqui fazendo esperando?
Ela responde, italianamente:
- Eh... Abro a porta pra vocês.
Não é o cúmulo do absurdo? A mulher abre a porta e não atende os próprios clientes. Ela nem assimila nossa chegada com um "Um momento". Cada dia que passa esse descaso irrita ainda mais.
A impressão é de que ao entrar numa loja pra fazer compras, os vendedores estão te fazendo um favor ao atender. E sabe o que é pior? Todo mundo que enfrenta isso aqui nesse país acha "charmoso".
Como é charmoso ser burocrático, demorado, enrolado. Como é charmoso ter um presidente que não estudou direito, deputados corruptos e péssimo atendimento em setor público. Esse parágrafo fala do Brasil... Pra se tornar a Itália basta acrescentar: péssimo atendimento no setor público E privado.
Sem mais
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quarta-feira, 21 de novembro de 2007
30 e lode
O título é uma representação literal do maior desejo dos estudantes italianos. O mítico 30 e lode. Situando melhor: As notas das provas aqui variam entre 0 e 30, cuja mínima para aprovação é 18 e a máxima possível, quando se demonstra completo domínio do assunto, é o 30 com honras (lode).
A parte cômica é, no entanto, a quase obsessão deles por notas altas. Estudar na Itália é uma tarefa complicada para quem vem de uma cultura como a brasileira onde, quem é Politécnico sabe, o fato de ser aprovado na matéria já é a vitória. Aqui é diferente, valoriza-se a nota.
Na faculdade, muitos alunos depois de terminarem a prova oral (sim, oral) recebem a nota do professor. Suponhamos um 27. Isso pra mim equivale a 9, excelente nota para qualquer matéria que seja. Ele olha, pensa e RECUSA a nota. Isso quer dizer que ele não vai levar aquela nota e terá a chance de tentar de novo no próximo oferecimento da prova (em geral são 3).
Chega-se ao cúmulo de ocorrer um diálogo assim:
- Ah, quanto você tirou na matéria X?
- Tirei 25
- Poxa, sinto muito.
Sinto muito eu por você achar que isso é uma nota baixa. Eu fico imaginando um cara desse na minha faculdade no Brasil. Bom, isso seria um outro post.
Não é exagero meu não. A percepção de que o esquema decoreba predomina aqui não é só minha. Os estudantes brasileiros em geral percebem e, conversando com uma professora italiana, ela me fez ver dois problemas:
1- O italiano estuda menos pra aprender e mais pra ir bem, esquecendo quase tudo em pouco tempo;
2- Os países cujas empresas não exigem nota, mas exigem desenvoltura do candidato à vaga acabam sugando os cérebros italianos pra eles, deixando a Itália sem seus melhores profissionais.
A discussão toda pode se alongar demais, mas que o 30 e lode é uma palavra mágica e uma espécie de “falsa chave-mestra” isso é.
Além disso, com esse método decora-passa-esquece valorizado aqui por tantos professores, um curso de leitura dinâmica ou memorização talvez vendesse bem, muito bem. Slogan “30 e lode ou seu dinheiro de volta”.
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Palpiteiros
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